6 de novembro de 2009

espelho


Os espelhos são sempre objetos deprimentes, possuídos de uma felicidade ingênua e feitos para refletir perfeitamente um universo de imperfeições. Não importam os polimentos, banhos de prata e tratamentos com cristal, à superfície refletora caberá sempre e apenas refletir o pó nas bochechas, os dentes branqueados e cremes rejuvenescedores.
Se um dia um espelho se pusesse a refletir o rugoso, em sua face lisa, certamente seria quebrado, acusado de defeito de fabricação, porém a deformação está mesmo no que é refletido.
Certamente, com medo do canhoto, mataríamos com um punhal esse amontoado de carne pecadora, depravada e macilenta que se encontra na nossa frente, apenas para falecermos, vítimas do punhal-reflexo.

9 de outubro de 2009

Ao futuro

Ao ser pedido para olhar para o futuro e preparar, em linhas, palavras, sons e imagens uma máquina que pudesse me levar até ele eu não pude ter outra reação senão olhar para o outro lado, o passado.
Muitos diriam que eu posso estar errado nesse movimento de cabeça e foco do olhar, mas tenho do meu lado inúmeros gurus da tecnologia, dos costumes e da moda que não me deixam enganar ao dizerem que o passado volta. Tantas vezes que nos vestimos como nas décadas de sessenta, setenta, oitenta e noventa, tantos filmes que contam histórias de personagens promíscuos, tantas músicas que se repetem nas influências de décadas.
Essa máquina pode muito bem me levar a repetir infinitamente algo do passado, sem nunca ter andado para trás.
Mas fica claro esse futuro preso nos costumes de antes, é fruto de homens e mulheres que não querem olhar para a única e verdadeira coisa que é o futuro, escuridão, amorfa e caótica.
É preferível dar forma e iluminá-lo com as coisas claras e belas do passado, numa esperança terrível de mansidão e tranquilidade, até que uma pedra nesse caminho nos faça tropeçar e quebrar tudo isso que carregávamos. Assim, seremos obrigados, como tantas vezes na história a acostumar os olhos e enlouquecer um pouco mais com o inesperado que nos aguarda.
Tudo o que mais quero é que a máquina me traga essa pedra, mas ela é importante demais para ser prevista.

11 de setembro de 2009

Genealogia I

colocada num algodão,
branco e molhado
-tal qual projeto escolar-
a semente se recusava a beber
cresceu árida seca torcida
como um estômago vazio
tirando da necessidade nutrição

5 de setembro de 2009

cinza

quero o gosto amargo
e a boca seca
dos beijos que trocaram
Humphrey Boggart e Ingrid Bergman

sentir mais do que vergonha
por não entender
o espelho
por entender
o meu gozo

Eu e alguém
trocando gestos
os lábios úmidos
e o gosto salgado

10 de setembro de 2008

um outro começo

Só mesmo por mudarem os ânimos, mudou o propósito. Quem sabe eu começo a escrever algo que preste de verdade